Existencialismo em Clarice Lispector

Uma imersão filosófica em “A Hora da Estrela”

 Umas das piores coisas que se faz ao escrever (eu sinceramente detesto fazê-lo) é o sedutor vício de tirar o autor de seu contexto em escrita. O autor está munido de uma linha de raciocínio e diálogo com a temática trabalhada em sua obra, sendo uma “heresia” isolar uma frase ou parágrafo e aplicá-lo até num viés em que o próprio autor discorda, ou antes, nunca pensou. Perigosa é tal prática, onde podemos usar os “clássicos” para teorizar formulações distantes e excêntricas que estão aquém do real discurso do autor em questão.
   Porém, embora eu – particularmente – não seja fã de tal prática, acredito que, em alguns casos, a contribuição descontextualizada de um autor pode ilustrar o ponto chave do pensamento ali desenvolvido. Nesse caso, apresento aqui sete parágrafos da obra “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector, ilustrando assim uma reflexão sobre as peculiaridades da vida e do mais intrínseco do ser humano.
   Usar algum texto clássico de Clarice Lispector – definitivamente – não é fácil. Ícone do Romantismo-Simbolismo, ou Realismo-Naturalismo, efêmera ou etérea, dogmática ou livre, clara e objetiva ao passo que demonstra-se hermética e complicada. Tais nuances de uma mulher incrível (e uma escritora que dispensa comentários) são complicados, pois demonstram não apenas uma singular bipolaridade, mas, uma indefinição tão escancarada que lança o leitor ao mais profundo abismo do pensamento existencialista. Ela mesma nunca conseguiu se definir, sendo assim, é razoável o igual não definir dos leitores, críticos e profissionais versados no campo das letras.
   Antes de adentrar in loco no texto, explicito aqui o viés filosófico usado para olhar os sete parágrafos de “A Hora da Estrela”: o existencialismo. De acordo com o fundamento do que seja existencialismo na ótica de seu idealizador – Kierkegaard (1813-1855) – a corrente filosófica defende que:
  “O pensamento existencialista defende, em primeiro lugar, que a existência vem antes da essência. Significa que não existe uma essência humana que determine o homem, mas que ele constitui a sua essência na sua existência. Esta construção da essência se dá a partir das escolhas feitas, visto que o homem é livre. Nessa condição na qual o homem existe e sua vida é um projeto, ele terá de escolher o que quer ser e efetivar sua vontade agindo, isto é, escolhendo.
 
Se a condição humana é esta, então o homem vive numa angústia existencial. Ter de escolher a todo instante é angustiante, pois cada escolha irá refletir diretamente no que se é. A angústia é o reflexo da liberdade humana, dessa ampla possibilidade de escolher e ser responsável por cada escolha.
 
Outra característica da condição humana é o desespero. Aquilo que nos torna quem somos pode ser perdido e nos deixar em desespero. Um atleta que sofre um acidente e fica incapacitado de competir certamente entraria em desespero. Porém, toda existência humana está em desespero, pois o homem precisa de coisas externas, que ele não controla, para se sentir quem ele é. Assim, mesmo vivendo sem o desespero, o homem está vivendo num constante desespero”.(1)
 
   Nesse viés filosófico, podemos verificar que tais elementos estão presentes na obra de Clarice em inúmeras passagens ao longo de seus textos. Não se sabe se Lispector bebeu da fonte existencialista enquanto inspiração, mas, trata-se de uma visão natural do ser humano, sendo que este é imerso cotidianamente na definição existencialista de Ser, e sê-lo é por deveras angustiante. Tratemos então da própria Clarice em “A Hora da Estrela”:
 
“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida.
Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim.
Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou”(2)
 
   A história do livro “A Hora da Estrela” inicia-se de modo perturbador. É posto em xeque o que há de mais primordial na reflexão humana: o pensar acerca da ancestralidade das coisas, de si e  do meio que o cerca. As coisas são como são? Tudo está posto, acabado e passível de continuidade ou ruptura? Onde estava a minha consciência de ser enquanto ser durante o sim? O ser humano, nós, começamos a formular teorias a partir do nada, tal nada – um escuro vazio existencial – amedronta o refletir, pois, o incomensurável assusta àqueles apegados em demasia a materialidade da vida. Como imaginar um tudo a partir de nada? Uns dizem Deus, outros, dizem nada.
   “Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho” (3)
 
   Clarice, nesse momento, é autobiográfica. Tal característica é pontual em toda a sua obra, a vontade de anular-se, mas a presença de sua vivência e personalidade é maior do que a distância entre o autor e sua narrativa, coisa que essencialmente, não existe. A simplicidade obtida através de muito trabalho apresenta uma dicotomia: o labor tecnicista (que é a priori complexo) e a simplicidade enquanto fruto de tal labor. A simplicidade demonstra-se um gozar, mas quem não trabalha não merece gozar: tripalium, tripalium!(4)
 
  “Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo
início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-história já havia os monstros
apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato.
Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre
um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente
interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade. Felicidade? (5)
   Observável se torna a angústia e a perplexidade a cada linha. O homem enquanto não tem respostas escreve, ou melhor, busca. Tal mentalidade configurou a revolução científica na transição medievo\renascença, assim como também em outros processos históricos.  O paradoxo do tempo é observável na indagação-constatação: “[…] antes da pré-história já havia os monstros apocalípticos? […]” demonstrando que aquilo que tememos desde o berço existiu antes de nós e, por lógica materialista, não nos ameaça mais, induzindo a termos medo do próprio medo do que o medo a algo propriamente dito. O ponto alto do parágrafo: “Pensar é um ato. Sentir é um fato”. Quantos de nós não pensamos, e quando convidados a pensar nos recusamos a fazê-lo. Considero tal paradigma um dos piores males que acometem aos indivíduos na contemporaneidade. O pior de todas as junções ao ato de pensar é o fato de sentir. Em nome de pensar estruturalmente e criticamente, interfere-se no ato de pura razão em nome de um sentir, que demonstra-se por vezes místico, oriundo da emoção: a partir do momento em que o discurso cede a emoção não há mais pensar, mas, pura defesa de um ideal sem capacidade de auto-crítica.
   A dor de dente comparada a própria dor de carregar o mundo e a falta de felicidade. Felicidade? Está clara a problemática mais cara ao existencialismo: definição de felicidade. O ser humano, em sua vida, busca ininterruptamente a felicidade, mas, que felicidade? Uns são felizes com a presença dos amigos, da família, nas drogas (desde as químico-naturais quanto afetivas: acredite…) no Fast-food, na leitura, no claustro ou na inércia. Por ser subjetiva demais perdeu-se a essência dela, e por ser por natureza, livre, torna-se autoritário defini-la com algo pronto.
“Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por ai aos montes” (6)
 
   O “nordestinas” refere-se á protagonista de “A Hora da Estrela”, Macabéa, mas não adentrarei na personagem e nem em seu perfil, até porque essa não é a finalidade do artigo.
   A palavra doida – saudade –  os remete aos piores momentos de indecisão, indefinição e torpor do individuo perante as adversidades do cotidiano. Felicidade é termo reservado aos detentores do capital financeiro – mas sabemos que não – ou aos religiosos – em partes, não – aos idealistas – longe disso – aos ignorantes – bem provável!
Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. omo que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes”. (7)
 
   Embora o dito acima esteja intimamente ligado ao fio condutor de entendimento para a história, deve-se abstrair o sentido da “história” enquanto a própria vida. A descoberta dos porquês, a iminência “de”, o escrever no mesmo instante em que esse “escrever” está sendo “lido”. Viver e ver o viver. Viver enquanto ato é tão ou mais complexo do que analisar o próprio viver pois, deste analisar, nos vangloriamos ou nos arrependemos dos atos simplórios do dia a dia sem nenhum significado expressivo de existir, ou dos atos grandiosos que fizemos em proveito próprio ou que – angustiosamente – deixamos de o fazê-lo. A partir disso, registramos o fato de viver, mas consideramos a vida enquanto mais uma notinha digna do “Histórias sem graça” (8) e portanto inútil, ou a publicamos em mais uma rede social – o que corrobora com a tese de Umberto Eco de que as redes sociais deram voz aos idiotas (9) – e assim seguimos na insignificância da existência.
“Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geléia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – e é claro que a história é verdadeira embora inventada – que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial”. (10)
   A coagulação se apresenta como o fim, o estancar de um sangramento, o findar de uma vazão de sangue. Assim também será com a vida? O coágulo? Assim que findar a vida alguém analisará o coágulo? Que tipo de coágulo? A vida embora inventada mostra-se verdadeira, vivemos diariamente as mesmas mentiras com tons de verdade, as efemeridades em tom de singularidade. A falta de dinheiro, embora fatigosa, em nada se compara a falta de nobreza de espírito. A pobreza de espírito é mais uma doença crônica enraizada na psique humana – em especial na geração da década de 90 (entre os quais eu me incluo) – que configura uma total apatia ao outro e até a si mesmo enquanto indivíduo.
“Como é que se tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu nem menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de sonsos”. (11)
 
   A partir do último parágrafo citado acima, a história realmente se inicia após as abstrações da autora. A narrativa apresenta quem pensou tais abstrações, o Sr. Rodrigo S. M. Como último trecho citado, percebe-se a grande “sacada” de Clarice acerca do aspecto primordial da questão conflituosa do ser humano consigo mesma: “Também sei das coisas por estar vivendo”. Viver é troca, aprendizado e apreensão de sabedoria, seja ela qual for. “Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe”, a alienação enquanto flagelo do homem. Não saber implica ser dominado sem grande esforço, ao passo que ser ignorante também pode ser uma benção.
  Clarice apresenta em poucas linhas toda a nossa estrutura densa, embora um tanto fútil, que configura os dilemas internos que levamos e refletimos na fila do pão, no trabalho, nos momentos de estudo e lazer. Problemáticas que angustiosamente nos perseguem, ininterruptamente. Nós realmente sabemosmais do que imaginamos ou, devemos concordar com Clarice que estamosfingindo de sonsos?
   Há muito o que pensar e refletir, afinal, o ato de pensar exige o despojar-se de pré-concepções e modelos convencionais. Só se consolida um pensar pragmático quando essencialmente nos livramos de ideias fixas, quando buscamos repertórios além do nosso rol de conhecimentos. Pensar cobra de nós uma irritante insistência e profundo desconforto. Um pensar que nos deixa na mesmice perdeu o seu primordial caráter, fazer o indivíduo sair de si reformular-se.
Até quando alienado (a) ou sonso (a)?
 
Prof. Lucas Rodrigues
 
 
Referências Bibliográficas:
 
(1) CELETI, Filipe Rangel. Existencialismo. Disponível em: http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/filosofia/existencialismo.htm.
(2) LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Editora Rocco, São Paulo, 1999. Pag 11
(3) Idem
(4) “Tripalium” – Palavra latina que originou a palavra Trabalho. Trabalho, nesse sentido, com conotação de tortura, algo desagradável.
(5) (6) (7) LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Editora Rocco, São Paulo, 1999. Pags 11-12
(10) (11) LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Editora Rocco, São Paulo, 1999. Pag 12
 
 
Obs. A Profª Filosofa Márcia Tiburi pode explicitar o sentido real da reflexão sobre “O pensar e aqueles que se recusam a fazê-lo” – http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/09/opinion/1447075142_888033.html
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