O Hobbit e a Política

A busca de um Tesouro
ou
O vício da prepotência em tempos de “Fora Dilma, Fora Temer”
Como a polarização, a segregação e o rancor prepotente enterra a cada dia o conceito de democracia
“A violência é a parteira da História”
Hannah Arendt
   Dentro da literatura, do cinema, e das artes em geral, é notória a presença, mesmo que eufemizada, dos verdadeiros anseios e profundos dilemas subjetivos, entranhados no mais profundo poço da psiquê humana, no inconsciente, no misterioso universo que é a mente. Desde as pinturas de Van Gogh e a manifestação fortíssima de seus delírios, ao clássico Os Sofrimentos do Jovem Werther de Goethe, ao apresentar o quão doloroso é o ato de amar e as abstrações que realizamos da leitura, o encarar talvez de uma vivência possível do próprio Goethe e como tal vivência se aplica na nossa vida, a nobre sensação e constatação a posteriori de que a ficção realmente não é tão ficção assim.
   Porém, há um curioso exemplo contido no livro O Hobbit, do aclamado Prof. J. R. R. Tolkien que por incrível que pareça – embora os menos dotados de abstração simbólica (faz parte) não possam talvez enxergar a mesma apresentada aqui – explica o atual momento político e interpessoal que observamos no país.
   No capítulo XII (Informações de dentro), Bilbo Bolseiro – o Hobbit que protagoniza a estória – dá de cara com Smaug, o dragão terrível, dormindo sob a pilha de ouro e outros artefatos ricos e preciosos forjados pelos anões, que o mesmo roubou após o saque e tomada da Montanha Solitária. O capítulo retrata Smaug como um dragão velho e forte, numa arrogância e prepotência que é inflada ainda mais sempre que é elogiado, tanto por sua estrutura (o manto dourado formado por suas escamas) quanto por esperteza e sagacidade. O diálogo termina quando Bilbo observa o “ponto fraco” do dragão: “[…] um bom pedaço no lado esquerdo do peito descoberto como um caracol fora da casca.” (TOLKIEN, 2011, p.221) e este, pressentindo o perigo, mesmo não o vendo, quase abocanha Bilbo que foge alucinadamente por um túnel.
   Como uma história infantil, que Tolkien escreveu para os filhos, pôde tornar-se tão emblemática na contemporaneidade? A narrativa do livro é breve, suave, de uma deliciosa leitura, é o curioso prelúdio dos eventos que ocorreriam na trilogia O Senhor dos Anéis. A obra é famosa no mundo cult, na geração nerd e naqueles fãs de mitologias alternativas que enxergam em Tolkien não apenas um criador de um mundo ficcional, mas, o autor de uma complexa mensagem analítica e, sobretudo, política (embora a mesma esteja enterrada sob pesadas metáforas), que encanta não apenas a esses fãs, mas a mim também.
   Ok! Mas, como isso se encaixa no atual panorama político e interpessoal do nosso querido Brasil? Partindo do modelo de análise psicanalítico dos contos de fadas de BETTELHEIM (1980) é bom que comecemos pelo seguinte princípio: quem é o dragão? O dragão representa uma figura de poder, figura essa consolidada por uma tradição. Essa tradição, por meio da disputa, tornou-se uma hegemonia, hegemonia esta detentora do tesouro – sobretudo a aplicação direta do termo: tesouro (capital) – e de todo o poder para lhe sustentar. Essa estrutura que dia após dia se apresenta segura, firme e dominada, proporciona ao dragão uma falsa segurança, originando prepotência, arrogância e sobretudo, cegueira perante os próprios riscos que corre.
   Bilbo, ao cansar muito o dragão com seu diálogo, faz com que esse se exponha demais, revelando assim a sua maior fraqueza: um bom pedaço desprotegido pela escaramuça. Foi o suficiente para fazer Bilbo fugir, o dragão tenta detê-lo mas é tarde demais.
   Parece viagem né? Mas tal narrativa, e tal interpretação, não se parece com a história do Partido dos Trabalhadores? Um partido nascido da esquerda democrática que após anos de militância política no contexto da pós redemocratização do país, tinha um objetivo para o Brasil: uma nova governança, um novo projeto político. Ao alcançar a instância maior, pela figura do Ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva, começou-se a observar a crescente debilitação do dragão – sobretudo no segundo mandato – e por consequência, o acomodar da fera e a crescente arrogância. O “abrir de pernas” para os ideias neo-liberalistas, capitalistas ao extremo e a traição da ideologia primária para o fazer governança “na camaradagem” mostrou-se a partir dai o suicídio do partido e de tudo o que o PT representava.
  A hegemonia prosseguiu firme com o mandato da Ex-presidente Dilma Rousseff, mas a corda já estava no pescoço, o fim estava próximo. Um governo abalado pela crise econômica e política, um partido que não é capaz de fazer auto-crítica (lembram-se do dragão?), a oposição já forjando suas bases e alianças, as eleições de 2014, o revanchismo que observamos e seu ato final: o Golpe, ou Impeachment?
  Não entro no mérito de ser golpe ou não. A análise que se faz determina a resposta: golpe parlamentar, mas totalmente orquestrado dentro dos ditames da Lei. Quer dividir o país? Tenha a genialidade do Brasil e da casta política que o comanda: é tiro e queda!
   Observemos atentamente o quadro político e governança do “golpista” Michel Temer. Não me agrada um “representante” do povo que corta e sangra vergonhosamente a educação em todos os setores: educação básica e superior. O descontentamento não se aplica somente a sua pessoa, mas ao que ele representa: uma oligarquia que vergonhosamente se instalou no poder, tal qual uma sanguessuga que grudou nas jugulares da governança e do jogo democrático, defendendo ideais a muito superados pelas classes populares. Cansou também apoiar um partido que traiu o seu ideal, dando um tiro no próprio pé e sepultando de vez o projeto de um país mais justo.
   É verificável os avanços de 13 anos de PT no poder: avanços sociais de todos os gêneros, e isso é muito! Quem nega esse fato é, ou mal caráter ou muitíssimo mal informado. Mas não se deve tampar o sol com a peneira, o pior aconteceu e teve os seus desdobramentos.
   Anos de hegemonia entranharam nas massas a cansativa generalização, tal como um ranço dos rótulos: coxinha-petralha, fascista-comunista, somos dilmãe-bolsomito 2018. Uma “argumentação” tão pobre e infantil que beira a demência: e temos doutores (das Ciências Humanas) nesse rol ai hein!
   A cadeia é clara: RÓTULO – SEGREGAÇÃO – LUTA SEM SENTIDO: INÉRCIA. No fim, todos se odeiam mutuamente, na universidade, na família, nas ruas. E a Democracia? Não sabemos que democracia, mas sabemos de uma coisa: ela não contenta ninguém. E no final, entendemos a grande jogada da democracia: o governo da maioria (e infelizmente, maioria não significa justiça) e nem sempre estamos preparados para viver esse sistema e suas nuances.
  O que se observa é a prepotência dos Fora Dilma e Fora Temer. O diálogo é impossível, as mágoas se multiplicam, as águas se dividem e afinal, e o tesouro?
  Esse texto não tem o intuito de responder absolutamente nada, NADA! Veio para entorpecer, confundir. Iniciamos na literatura, passamos pela análise de texto e terminamos em política. Quem dera fizéssemos diariamente a dialética das comparações e os insights fossem suficientes para construir um discurso realmente sólido. Para finalizar, nada como uma boa abstração filosófica:
“Existem, na verdade, muito boas razões para acreditar
que o tesouro nunca foi uma realidade, e sim uma miragem,
que não lidamos aqui com nada de substancial, mas com um
espectro, e a melhor dessas razões  é ter o tesouro permanecido
até hoje sem nome”
(ARENDT, 2009, p.30)
Atrevi-me a tirar Hannah Arendt de seu contexto, e ela há de me perdoar, mas as metáforas ao longo dessa reflexão devem inquietar. Sem inquietação não há movimento, mas as repetições de clichês geram a inércia de quem realmente tem algo a dizer além do convencional.
Prof. Lucas Rodrigues
 
(NOTAS: 1. Cuidado com a abstração filosófica de Hannah Arendt, a mesma deve ser lida dentro do seu contexto, em especial de sua fonte: Entre o passado e o futuro, só assim se entenderá o que realmente ela quis dizer. 
2. O “tesouro” saiu de seu primeiro simbolismo: o capital, para outro tipo de tesouro. O que é afinal? Essa é a questão!)
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. Perspectiva, Série: Debates, São Paulo, 2009
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980
TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. Martins Fontes, São Paulo, 2001
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