Uma visão sobre o Feminismo

ENTENDENDO AQUILO QUE NÃO SE VIVE

ou

Uma reflexão insuficiente acerca da Mulher fora da ótica femininaResultado de imagem para simone de beauvoir

 Há um grande consenso, mesmo no âmbito acadêmico (o que infelizmente é observável) de que o pesquisad(o)r, homem, não deve, à priori, falar sobre a condição feminina. Os movimentos feministas mais radicais insistem na tecla, e até mesmo se observa a parcial, ou ainda total rejeição a qualquer análise masculina acerca de qualquer aspecto da vida exterior e interior da mulher. Isso se dá, por excelência, por dois motivos óbvios: primeiro: o homem fala da mulher e para a mulher dentro do seu ideal pessoal do que é ser mulher (na maioria das vezes, por uma ótica machista), o que implica, além da dominação da mulher enquanto sujeito, a dominação também intelectual. Desse viés se explica o grande porquê de algumas mulheres reproduzirem machismo com uma naturalidade ímpar. Segundo: o homem não é, obviamente, uma mulher, portanto, não sente enquanto uma, não vive enquanto uma, não sofre enquanto uma, não é privado de certas coisas da vida enquanto uma. Portanto, é o menos, ou ainda, o sujeito explicitamente inadequado para abordar qualquer assunto referente a questão feminina.
Nessa problemática, levanto primeiramente o lado negativo de tais críticas. Assim como a mulher, o homem é ser humano, capaz de analisar a si, ao outro e ao meio que o circunda, sendo assim, o homem também pode falar de mulher. O homem precisa ser desconstruído ininterruptamente em sua estrutura, in persona, desfazendo todas as concepções puramente machistas e principalmente misóginas (acredito que um seja consequência do outro) típicas da educação, mesmo familiar (e infelizmente escolar) que moldou o rapaz enquanto sujeito. Sob essa perspectiva, o homem precisa sim ser iniciado nos debates e nas problematizações acerca da questão feminina, tornando-se assim uma pessoa que, além de tornar a sociedade um lugar mais seguro às mulheres (violência essa perpetrada por homens), irá legitimar também o movimento feminista que, embora haja discordâncias, busca a equidade entre homens e mulheres.
Em segundo lugar: a questão do homem falar pela mulher: correto! O movimento necessita primordialmente de identidade. Um movimento feminista em que o homem tenha voz de comando é, no minimo, non sense. Pode-se comparar a um tipo de movimento negro em que os brancos os representem, que o capitalista fale em nome do proletário… cada movimento só consegue manter a sua identidade original se houver o protagonismo da classe que o integra. Cada um fala das dores que sente, nunca o outro.
Nesse viés, é legítimo o clamor pela originalidade que advém do protagonismo, mas ai também se encerra um dilema: a segregação. Acredito ser a segregação um dos piores males da humanidade. O branco (em maioria, privilegiado) pode falar sobre a questão racial, o homem (cis) pode entender, defender a causa e lutar pela igualdade, o capitalista pode sim se apiedar e tornar-se consciente da exploração que o sistema causa ao trabalhador (embora a maioria trabalhe na incessante alienação do trabalhador). Isso se chama diálogo, e o mesmo gera consciência crítica e um relativo (e utopicamente gradual) suavizar das relações humanas tão desgastadas pela exploração do homem pelo homem.
Retornando a questão feminina: o que é ser mulher? Esse questionamento, embora pareça simples, me enche de outras perguntas e sentimentos oriundos principalmente do observar a mulher propriamente dita. A desconfiança dos amigos homens e de seus reais interesses, o “cara” que parece desconstruído mas, em uma total ausência de empatia, é o primeiro a rotular a mulher, o observar das mesmas coisas relativas a causa feminina retrocederem num constante (na esfera política) e afins.
Quantas não enxergam a beleza do próprio corpo, quantas em experiência de gravidez que vivem cotidianamente uma luta constante de autoaceitação e de aceitar também o fato de ser mãe (principalmente quando a escolha de sê-la não existiu), quantas não se anulam repetidamente perante os olhares inquiridores dos outros, a pena, a dó, a chacota: os piores sentimentos dispensados a alguém. além dos clichês “básicos” de que a pessoa é frágil, doente e necessita das lições de moral da vida alheia (que de uma hora pra outra todos viraram especialistas).
E a rotina? Inspiro-me primordialmente no romancear da maternidade. Pessoalmente eu admiro a maternidade pelo fato de ter uma mãe (e admirá-la muito por isso), mas o porquê da admiração? Pelo simples fato de o ser? Admiro as mulheres que são, que foram ou que serão, pela enorme paciência, pelas escolhas e suas consequências, pelos dilemas psicológicos que só ela sabe. Fácil é ser homem e admirar a distância um alguém (a mulher) que se esfacela por dentro, equiparando-se a uma concha vazia na praia, apenas existindo.
Essa reflexão poderia se estender ad aeternum pelas linhas desse texto, tamanha é a complexidade do ser mulher e de todas as implicações que a cerca rotineiramente. Retornando a premissa inicial, um homem pode falar da condição feminina? DEVE! O pai que deve amar a sua filha em todas as desgraças e não julgá-la, (hostilmente a sociedade já o faz), o namorado\marido que precisa não por obrigação, mas pela gratuidade daquilo que chamamos de amor, auxiliar e não apenas estar, mas ser presente em todas as instâncias da vida a dois enquanto a mesma durar, o amigo que não pode, em hipótese alguma, ser fútil, mas amar o amigo a altura da definição grega de amor ágape ( “αγάπη”) que sintetiza a doação sem medida.

Acima das categorias de gênero, uma questão de humanidade: ás mulheres, sororidade, aos homens, solidariedade e empatia (que no fim, são quase a mesma coisa).

Leituras ótimas para entender a questão feminina:


O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir (clássico)
O mito da beleza, Naomi Wolf
A Mística Feminina, Betty Friedan
Política Sexual, Kate Millett
A sujeição das Mulheres, John Stuart Mill*

*Um “clássico” homem que fala da questão da sujeição das mulheres.
*Os escritos de Virgínia Woolf são interessantíssimos, vale a pena conferir, por exemplo: “Profissões para Mulheres e outros artigos feministas, pela editora L&PM Pocket.

Prof. Lucas Rodrigues

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s