Precisamos falar sobre “Sensibilidade”

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Sinceramente, em termos de atualidade com a produção dos “monstros” do cinema conceitual, admito, estou atrasado. Uma ideia que defendo a cada dia toma mais corpo pela observação da prática, a maturidade nos oferece olhar de um modo muito mais esmiuçado para a arte, em todas as suas esferas e representações.

Conheci Lars Von Trier muito tarde e, infelizmente, numa ótica preconceituosa dos verdadeiros e, principalmente, dos falsos moralistas. No ano de lançamento de “Ninfomaníaca (2014)” recebi inúmeros posicionamentos contrários ao filme e ao próprio Lars, desde a exploração exacerbada da esfera “íntima” aos comentários em Cannes sobre nazismo. Nessa visão, posterguei muito tempo em consumir algo vindo dele.

Ocorre que a curiosidade é sempre mais forte que o moralismo – principalmente quando ele não veio de você, mas lhe imposto – e terminei por iniciar o contato com  obra de Lars. Arrependi-me de não tê-lo assistido antes. Ainda não assisti “Ninfomaníaca”, mas descobri a genialidade por trás das câmeras, genialidade esse oriunda de uma sensibilidade não do próprio Lars (que se mostra um ogro) mas daquilo que o transcende, sua arte. Lars Von Trier é mais um daqueles sujeitos que entram no rol das contradições, e eu amo as contradições, pois fogem dos padrões.

O primeiro contato com Lars foi através de “Melancolia (2011)”  pela indicação das minhas leituras em Filosofia e Simbolismo. Kirsten Dunst está impecável e Lars têm um ritmo que admito, se quem assiste não está preparado para tal ritmo, cedo se cansará, portanto, digo que seus filmes são para poucos.

Em seguida veio “Anticristo (2009)” e sim, o filme me deixou perturbado por uns tempos. A essa altura eu já anotava Lars na minha caderneta de referências e o tomava como ícone. Mas o estilo de Lars, embora peculiar, sempre surpreende, e esse foi o caso do motivo da minha escrita, mais uma vez, a delicadeza unida a crueldade.

“Dançando no Escuro (2000)” é um desses filmes que me pôs a refletir muito. Assim como “O Sétimo Selo (1959)” de Bergman, esse filme traz alusão a um simbolismo rico e ao memso tempo, simples, tanto que você pode se perguntar: onde está a “graça”?

Arrependi-me de nunca ter conhecido esse filme antes. Por duas horas e meia (aproximadamente) estive imerso num universo tão íntimo, peculiar e intenso que confundi-me com a protagonista Selma (interpretada brilhantemente pela cantora Bjork que juro, já a amo desde já) em vários momentos. Adianto que, sim, o filme pode cansar. Trata-se de um musical (com interpretação, letra e música da própria Bjork) e geralmente musicais cansam (na minha opinião) e os únicos musicais que não me cansam jamais são “Sweeney Todd (2007)”, o clássico “The King and I (1956)” e o emblemático “A Noviça Rebelde – The Sound of Music – (1965)” que curiosamente é o tema que está presente no filme de Lars. “Dançando no Escuro” me cansou um pouco, mas eu me recuperava logo com o desenrolar da trama.

Não me atentarei ao roteiro e na sua evolução durante o filme, mas pontuo o que mais me marcou. Bjork é fantástica. Ela encarna Selma e a vive de um jeito tão delicado e sincero que não se sabe se quem está na tela é Selma ou Bjork. Os trechos musicais tratam das alucinações que Selma têm ao ouvir sons ritmados. Selma sofre de uma doença que, progressivamente vai deixando-a cega, o que faz com que você prontamente tenha empatia com seu drama. O filho, Gene, também sofre da mesma doença, o que impele Selma a trabalhar exaustivamente numa fábrica metalúrgica, juntando dinheiro para que o filho realize a cirurgia que o livrará de tal mal.

As coisas começam a desandar quando o policial Bill (proprietário do trailer que Selma e o filho moram) comove Selma com o seu “segredo”, de que passa por uma severa crise financeira e que não tem coragem de contar a sua esposa consumista. Reciprocamente, Selma conta o seu segredo, dizendo de sua doença. Mais tarde, Bill se aproveita da cegueira de Selma e descobre o esconderijo de suas economias, roubando-a.

Selma é mãe, e aqui tal voracidade de uma mãe é amplamente explorada por Lars. Não importa as consequências, o dinheiro é para a cirurgia do filho e Selma mataria para tê-lo de volta (ops, spoiler).

Não entro nos desdobramentos, a empatia e o sentir-se como Selma só ocorrerá assistindo ao filme. Mas há considerações a serem pontuadas.

O ano é de 1964, os EUA e sua política rígida e desumana são muito bem salientadas no filme. Selma é estrangeira e simpatizante do comunismo, algo intolerável para os EUA (ainda mais na época) o que é levado em conta durante o seu processo judicial. Observamos a vida do operário, massificado e objetificado no manuseio da máquina, a exploração capitalista em alta, a “alienação” do trabalhador ao que ele produz. Em resumo, em termos marxistas, aquilo ali é uma tragédia.

Vemos também o perfil de Bill e sua esposa. Um casal nos moldes do típico cidadão norte-americano, preso ao materialismo e consumismo acima do valor humano. Nota-se também a inversão de valores do filho de Selma, onde é posto que o mesmo só seria aceito se tivesse o que os outros têm, valor esse que Selma não comunga. Vê-se ai o valor do consumo como um valor indissociável do homem, o fetiche.

E por fim, encaramos frente a frente a máquina desumana, horrorosa e brutal do sistema carcerário estadunidense em 1964 – segundo a ótica do filme – e assistimos, impotentes, o desmoronar de Selma, sem nem ao menos um estímulo sonoro para mais um de seus delírios musicais. A esperança, em meio a tanta frieza, personaliza-se nos amigos de Selma em sua defesa, e curiosamente em uma policial carcerária que, pessoalmente, me emocionou muito, visto que era a única a se importar com Selma, dando-lhe esperança, apoio. Sua indignação é a de quem assiste, que no fim das contas é calada, silenciada. Nada é mais duro e cortante do que o silenciamento, mostrando a vontade do rebelar-se e do gritar.

O fim é trágico, adianto aqui. Lars constrói, juntamente com Bjork, uma aura totalmente pessimista e chocante. O final choca. Um musical que termina em profundo e constrangedor silêncio, arrancando de nós soluços e lágrimas. A atmosfera pesada e a impecável atuação de Bjork ressalta a sensibilidade. ASSISTAM AO FILME!!!

Disso, que abstrações realizar? Certamente esse é um filme para poucos, essa é uma certeza. A grande lição desse filme estão pautadas em algumas questões cruciais:sensibilidade, verdade, coragem e transcendência.

A vida é uma breve passagem, e por ela seremos bem sucedidos não pelo acumular ou atingir certo status esperado, mas pela sensibilidade com que observamos o progredir de nossa estadia nesse mundo. Sensibilidade para olhar o outro, acariciar a beleza de uma tarde de verão, de fazer parte dos sentimentos do outro, de cantar, amar e ser alguém que vale a pena ser lembrado. A sensibilidade é a mestra da vida no que tange não apenas aos nossos sentidos que nos fazem perceber o mundo, mas entender cada um dos estímulos.

Verdade. Essa palavra nunca nos assustou tanto. Por vezes, a verdade é muda e faz-se necessária calada ficar para o bem do outro. Até que ponto somos verdadeiros? Até quando conseguimos sustentar a responsabilidade de manter a verdade. Somos capazes de ocultar a verdade, e sermos verdadeiros com os propósitos feitos com o outro (foi o caso de Selma, mesmo que isso tenha levado ela até onde levou) mesmo que isso nos custe a vida?

Para isso é necessário ter coragem. Coragem de assumir os riscos das decisões e suas consequências.

E por fim, transcendência. Ser capaz de rir, estar fora da realidade, cantar, mesmo em face do sofrimento e mesmo da morte.

Essa leitura da realidade pode ser ingênua? Sim, pode. Aqui não há cânones, não há verdades absolutas. Mas ainda prefiro continuar ingênuo e bater sempre na tecla, que faz título desse post: sensibilidade.

Podemos destruir vidas em nome de rótulos, vemos isso acontecer todos os dias em inúmeros casos de insensibilidade e apatia ao outro. No caso de Selma, além do fato (sem spoiler) que a levou ao tribunal, fora lhe dado a alcunha de comunista e, curiosamente, vi um comentário no You Tube sobre a cena final (que é chocante, sem definição) em que se dizia: “mais uma comunista pro saco” acompanhado de um “hehehe”. Sim, estamos dispostos a não se incomodar com uma cena tocante porque afinal era mais comunista que “foi pro saco”.

Ter sensibilidade e ser sensível não está na moda. Para as mulheres em geral é esperada tal sensibilidade, que erradamente é confundida com delicadeza. Dos homens tal sensibilidade não é esperada e muito menos encorajada, pois não é um comportamento “esperado” dentro das construções sociais de gênero que tolhem o indivíduo e o leva a frustrar a própria individualidade e essência pessoal.

“Dançando no Escuro” daria mais linhas para esse texto, mas o filme não precisa de acréscimos e muito menos de interpretações que serão infinitas. Cabe a nós, termos sensibilidade e dela não termos medo e muito menos vergonha.

They say it’s the last song; They don’t know us, you see; It’s only the last song; If we let it be

Eles dizem que essa é a última canção, eles não nos conhecem, sabe. É apenas a última canção, se deixarmos que seja”

 Prof. Lucas Rodrigues

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2 comentários sobre “Precisamos falar sobre “Sensibilidade”

  1. Que leitura boa! Tinha assistido esse filme mas nunca tinha parado pra pensar no termo sensibilidade. É verdade, o filme me deixou bem marcada quando vi.

    Lucas, vi que vc fala de vários assuntos, poderia falar algo relacionado a Educação?
    Obrigada e parabéns!!!!!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Olá Veridiana!
    Fico feliz que tenha gostado do texto!
    Peço desculpas por responder somente agora.
    No momento estou um tanto atarefado, assim como estou com alguns problemas de saúde, por isso, não consigo escrever com frequência. Mas estou fervilhando de ideias e temas, inclusive, educacionais, que são a minha especialidade.

    Abraço, querida!

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