A arte de Gerda Wegener – A mulher que deu o sopro de vida à “garota dinamarquesa”

poster do filme danish girl.jpegA ressurreição de Einar e Gerda Wegener se dá, principalmente, pelo sucesso e amplitude do filme “A garota dinamarquesa”.

por Lucas Rodrigues.

Parece-nos sempre um ciclo vicioso e já peculiar do universo artístico a queda ou ascensão de certos personagens da História da Arte. Alguns pintores, por exemplo, nem mesmo são citados dentro dos grandes manuais ou, propositalmente – dentre inúmeros fatores que devem ser levados em consideração – transportados ao ostracismo e ao total esquecimento, esquecimento esse, por vezes, injusto e lamentável.

Este é o caso de Einar e Gerda Wegener, casal de pintores do início do século XX. A história pessoal de ambos, principalmente da fase de Einar enquanto “Lili Elbe” (personagem que Einar assumiu quando da sua transformação e transição de gênero) que se mostra conturbada – devido aos padrões da época – e ao mesmo tempo, corajosa e poética, porém, o intuito aqui é de mostrar a qualidade estética das obras de sua esposa, a também esquecida, Gerda Wegener (1885-1940), destaque dessa análise.

Falar de estética é algo complicado, definitivamente. A pós-modernidade se coloca enquanto relativizadora daquilo que é “belo e bom”. Mas, se por esse lado a pós-modernidade gera, por vezes, um desserviço a produção artística, por outro lado, a mesma nos garante certas problematizações que não podemos nos furtar de realizá-las. O que é o belo e o bom? Quem define o que é belo e bom? Com que propósito há tais definições? Com que pressuposto se “carimba” uma produção artística como algo belo e bom por excelência? O que, de quem, e para quem?

Tais questionamentos devem estar sempre a nossa disposição para utilizarmos sempre que necessário, mediante uma classificação que se apresenta arbitrária daquilo que, a partir de nossos gostos estéticos e concepções próprias de arte e de mundo, temos a audácia de classificar o que é arte e o que não é.

ANÁLISES

1.

Gerda-10-730x525.jpg

“Womam in the Window” – Einar Wegener (sem data) – 730×525, óleo sobre tela – Acervo particular (fonte:http://projetocolabora.com.br/artigo/as-garotas-dinamarquesas/)

As pinturas de Einar são todas no mesmo estilo, paisagens, portanto, pode-se definir que Einar é, a priori, um paisagista. A pintura acima é uma exceção de seu estilo dominante. A “mulher na janela” se apresenta um tanto autobiográfico. Pelas fotos de Einar, ainda como homem, verifica-se certa semelhança a partir do estilo de penteado. A postura e curvatura da modelo assemelha-se de modo peculiar á maneira do pintor se portar. Curiosamente, o estilo de Einar continua no que diz a respeito das cores. Uma certa vivacidade e primariedade que se vê muito nas ilustrações infantis. Escolhi a única pintura de Einar – pois a análise trata-se da produção de sua esposa, Gerda – pois a mesma demonstra ser a maior demonstração da transição pessoal e interna que ele passava, exacerbando a leveza e uma certa utopia de uma possível tranquilidade, num processo que não foi nada tranquilo, levando-se em conta o seu tempo-espaço contemporâneo. Como veremos a seguir, Gerda, a partir de seus pincéis, será a pessoa que dará vida ao novo Einar, Lili Elbe.

2. Gerda-9-730x965.jpg

“Two cocottes with hats” (Lili and firend) de Gerda Wegener, 1925. Óleo sobre tela, 730×965. Acervo particular\Arken Museu – Copenhagem.

Um dos primeiros quadros que leva Lili Elbe (Einar) a luz do conhecimento. Tratada como uma amiga de Gerda (retratada como a personagem loira, em destaque). A estilística típica dos anos 20 e 30, um ar de “Coco Channel” nas vestimentas e maquiagem, assim como um certo “art noveau” que se mistura nas referências temporais que estão implícitas no quadro. Os olhos semicerrados de Lili, e sua peculiar feição de interioridade e até mal disfarçada reserva, demonstra a timidez com que Lili veio ao público. O filme “A Garota Dinamarquesa” nos apresenta uma Lili que vai se descobrindo e aos poucos se inserindo nas relações sociais. Embora seja no filme algo visivelmente romantizado, o quadro certamente apresenta tais nuances.

3.

Gerda-7-730x614.jpg

“The ballerina Ulla Poulsen in the Ballet Chopiniana” de Gerda Wegener, 1925. Óleo sobre tela, 730×614 – Paris. Arken Museu, Copenhagem.

Talvez uma dos melhores quadros no que condiz com o espírito da belle époque francesa. No meu gosto artístico e estético, defino-o como a mais bela representação do delicado e do transcendente feminino. Há uma certa harmonia e contraste entre os jorros de luz que não são nada naturais, ao passo que parecem fazer parte do vestido delicado e bem trabalhado que a bailarina usa. A temática muito me impressiona por ser simples e ao mesmo tempo belo. Tal pintura não tem nada a ver com a relação Lili\Gerda, mas, de acordo com o filme, parece que Einar serviu de modelo para Gerda em algumas etapas da pintura, já que a modelo por vezes faltava a casa do casal, que também servia de estúdio.

4.

Gerda-6-730x916.jpg

“Queen of Hearts (Lili)” de Gerda Wegener, 1928. Óleo sobre tela, 730×916. Acervo particular\Arken museu, Copenhagem.

Eis ai a própria Lili, sozinha e em representação total de sua personalidade. Lili não foge do estereótipo da mulher da época: burlesca, fumante, delicada e com roupas leves, entregue aos jogos e ao ar de sedução.  A pintura vai inaugurar uma característica que marca Gerda Wegener, o apelo a sensualidade exacerbada. Embora Lili não esteja enquadrada nessa peculiaridade representativa de Gerda, um leve toque apimentado e até “convidativo” de Elbe se mostra a partir do translúcido do vestido que usa, a posição de suas pernas e a mostra do forro do vestido, que fica sempre na parte interna do vestido, servindo até mesmo como uma camisola. Veremos a seguir a real visão de Gerda sobre a sensualidade e o sexo em si: caótica, sádica e escancarada.

5. tumblr_m638lvKLVw1r24e6ho1_1280-663x1024.jpg

“Sem dados disponíveis” Gerda Wegener

46_Le-Modele-Gerda-Wegener-1927_7058.jpg

“Le modele” de Gerda Wegener, 1927. Óleo sobre tela. Acervo particular.

A sensualidade começa a imperar nas obras de Gerda. O interesse pelo corpo feminino e sua delicadeza estão implícitos na concepção dos quadros e explícitos na sua execução. Haveria, na época, boatos do gosto “lésbico” de Gerda, o que unido ao fato da transformação de Einar, levou aos olhares e bocas das elites conservadoras europeias, muitas delas presentes nas galerias de arte. Tal boato não é confirmada por nenhuma referência bibliográfica séria que seja válida a citação, e ainda não se sabe quanto a fontes primárias sobre o fato. Porém, não é difícil imaginar que tal boato seja verdade.

6.

4353040_1_l.jpg

“Sem dados disponíveis”, Gerda Wegener

Gerda trabalhou muitíssimo com a sexualidade lésbica, pois além das pinturas em óleo sobre tela, a mesma dedicou-se também a ilustrar para inúmeras revistas e magazines da época.

Gerda-1-730x937.jpg

 

highres_223885652.jpeg

Não contentando-se a tratar de desenhar ilustrações “bem explícitas”, Gerda também se dedicou a ilustrar revistas de moda, o que lhe deu certa notoriedade financeira.

_________________________________________________________________

Gerda Wegener, certamente, vale um estudo detalhado e com toda certeza, mais atenção além da que está sendo dispensada por conta da repercussão do filme, que, embora tenha sido lançado no ano de  2015, em pleno 2017 ainda cabe nas análises e estudos que desse ressuscitar são oriundos. Gerda Wegener, assim como seu marido, Einar, são pintores que se encaixam na pintura acadêmica, embora Gerda só tenha ingressado nesse “academicismo” após certa pressão e influência de Einar que já estava inserido nesse universo. Na História da Arte, ambos não são expressivos por motivos que já levantei anteriormente. Sendo assim, cabe aos curiosos levantar fontes e trazer a luz suas técnicas, suas representações e sua história, pois a produção de Gerda e Einar retratam, quase que fielmente, suas vidas e as inúmeras transformações que sofreram ao longo da carreira dentro da arte e fora dela em suas vidas pessoais.

______________________

Lucas Rodrigues, 22 anos, pedagogo e graduando em História pela Universidade Federal de São João del Rei é apaixonado por História da Arte, disciplina que almeja abordar em seu futuro mestrado.

Possíveis referências para leitura online:

http://projetocolabora.com.br/artigo/as-garotas-dinamarquesas/

http://www.nuncalosabre.com/gerda-wegener/

http://heloisamarra.com/home/blitz/50245-einer.html

Anúncios

2 comentários sobre “A arte de Gerda Wegener – A mulher que deu o sopro de vida à “garota dinamarquesa”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s