“O Outono da Idade Média”: Uma apologia ao medievo tardio nos paradigmas da beleza.

“Quando o mundo era cinco séculos mais jovem, tudo o que acontecia na vida era dotado de contornos bem mais nítidos que os de hoje.” (HUIZINGA, 2013, p. 11)

– Quando uma obra lhe permite mergulhar no limiar entre o compreender e o sentir, ultrapassando o limite claro entre o academicismo histórico e a empatia sensorial, eis ai algo digno de ser lido para além da necessidade puramente intelectual –

por Lucas Rodrigues.

22325782(O Outono da Idade Média, de Johan Huizinga na primorosa edição da Cosac Naify)

Este post do Miscelânea Pontual, na tag “Biblioteca” vai além de uma mera indicação de obra literária. O livro em questão merece, com todas as pompas, uma análise demorada, profunda e bem explanativa tamanha é a singular riqueza desse livro tão aclamado, e ao mesmo tempo, pelo que parece, tão pouco valorizado.

Falo do O Outono da Idade Média, do historiador neerlãndes Johan Huizinga (1872-1945). Vale pontuar, sucintamente, algumas considerações sobre o próprio Huizinga, pois seu espectro ronda as linhas do Outono, assim como suas opiniões mal disfarçadas em seu rigor acadêmico, que são bem interessantes no que concerne a suas concepções de si, do seu tempo e do tempo que ele se propõe a pensar: a Idade Média.

A partir da leitura de O Outono, (duas ao todo, levando em conta que o mesmo trata-se de um calhamaço de 656 páginas) apoiado pelos comentários do historiador Peter Burke, pela exímia entrevista com Jacques Le Goff – in memoriam – (acrescentada nessa edição de 2013) e pela rápida explanação de como surge o livro, assim como uma pequena tomada biográfica do próprio Huizinga, escrita por Anton van der Lem, percebo o quanto Huizinga simplesmente detesta o seu próprio tempo (segunda metade do XIX e primeira metade do XX) e como se orgulha de trazer em si “elementos medievais”, o que o torna um sujeito peculiarmente anacrônico na mentalidade, se é que é possível falar em algo tão insólito.

Parece-nos então que Huizinga trata-se de um sujeito mal encarado, extremamente religioso, supersticioso e agregador de todas as categorias “medievais” que gostamos de vomitar em nossos discursos, sobretudo calcados naquele senso comum colegial. Nada mais equivocado. Huizinga, no livro, vem retratar a beleza, a suavidade e ao mesmo tempo, a intensidade dos sujeitos, da produção cultural e intelectual nos idos dos séculos XIV e XV, fim ou “declínio(1)” da Idade Média.

Nessa obra, Huizinga será o pioneiro em sua narrativa histórica e em seu tratamento às fontes: a História Cultural, sobretudo naquilo que tardiamente será conhecido, dentro da veia historiográfica como a história das mentalidades.

Huizinga vai propor-nos pensar a Idade Média (o que vem na atual leitura historiográfica da Idade Média, como em superação às lendas negras dos iluministas contra o período) como a idade da luz, de efervescência intelectual (mesmo com suas limitações) e sobretudo cultural. Uma época de preceitos e trejeitos sociais e religiosos que moldam a mentalidade do homem medieval, e consequentemente, de suas ações, todas elas impregnadas de um sentido simbólico, litúrgico e solene.

O autor nos transmite essa aura de encanto logo na primeira pagina:

“Entre a dor e a alegria, o infortúnio e a felicidade, a distância parecia maior do que para nós: tudo o que o homem vivia ainda possuía aquele teor imediato e absoluto que no mundo de hoje só se observa nos arroubos infantis de felicidade e dor” (HUIZINGA, 2013, p. 11)

A citação acima nos ilustra duas coisas primordiais em Huizinga: sua admiração quase que fervorosa sobre a Idade Média, e seu total desprezo pelo seu próprio tempo, desprovido do colorido e do imbuído de sentimentos que elevam à solenidade os menores, mas supravalorizados, feitos simples do cotidiano.

HUIZINGA E A ARTE

A edição de 2013, produzida pela finada (infelizmente, que dor no coração!) editora paulistana Cosac Naify, realizou uma obra primorosa. Devo puxar uma sardinha ao icônico Charles Cosac (já vi o homem perambulando pelo MASP uma vez, na Paulista – de uma elegância que só vendo) que contou com uma equipe impecável na produção dos livros, os chamados “livros obras de arte”.

Era uma editora ímpar, sem mais. A mesma dedicou-se a tirar do ostracismo, produções acadêmicas com contribuições valiosíssimas para as Ciências Humanas, sobretudo no campo da antropologia e, valiosamente, da História da Arte. Livros com capas muto bem feitas, com uma qualidade incrível da diagramação, papel e ilustrações, assim como acabamentos muito bem elaborados.

Todo esse trabalho, convenhamos, salgava de modo exponencial os preços dos livros, mas, na minha opinião, os preços faziam jus ao produto.

Tal fator do preço, unidos ao não incentivo das editoras e sobretudo à cultura da não-valorização do livro e consequentemente da leitura (ainda mais dos livros da Cosac que tinha um público bem seleto) a editora se viu na ruína. Entre outros fatores.

Pois bem, essa edição de O Outono da Idade Média é ricamente ilustrada. Todas as menções artísticas que Huizinga faz ao longo de sua narrativa são recheadas por reproduções em ótima qualidade de pinturas (quadros), esculturas e sobretudo iluminuras e miniaturas medievais. Além da corrente historiográfica em si, o tratamento e destaque que a edição dá à arte torna o mesmo quase que um manual da produção artística do período. Tais características tornam a obra um senhor livro da História Cultural, sobretudo iconográfica.

arnolfini

O casal Arnolfini, do flamengo Jan Van Eyck – 1434.

Destaco aqui o tratamento que Huizinga dá ao pintor Jan Van Eyck, o que define como uma das maiores expressões da arte medieval no “anoitecer” da Idade Média. A partir de uma análise de “O casal Arnolfini”, Huizinga vai ilustrando os aspectos de uma “melancolia” típica dos idos dos séculos XIV e XV. Aponta também a simbologia farta do quadro, as representações e certos aspectos do conjunto de obras de Van Eyck como “genuinamente do seu tempo”, sendo o casal arnolfini sua expressão mais singular.

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Particularmente falando, enquanto pesquisador em História da Arte, acadêmico de História e grande admirador da Idade Média e consequentemente de Huizinga, não tem como não dar uma nota 10 para o livro. Cobiçava-o desde o lançamento em 2013, obtendo-o com desconto pela própria Cosac Naify com o cadastro de professor, hoje infelizmente inexistente.

Vale a pena a leitura, para os interessados ou pelos admiradores de uma boa leitura historiográfica. Trata-se de uma leitura fácil (depende) e muito gostosa de ser feita. A edição auxilia no processo de modo espetacular.

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INDICAÇÃO DO “MISCELÂNEA PONTUAL”

HUIZINGA, Johan. O Outono da Idade Média. Editora Cosac Naify, 2013. São Paulo.

Você encontra “O Outono da Idade Média” não mais na Cosac, mas na AMAZON que comprou todos os títulos da editora.

O Outono da Idade Média no Amazon.com, por apenas 129,90 R$: Clique aqui.

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Caso esteja no perrengue, há uma democratização da obra aqui para baixar: Clique aqui.(2)

§§§

Boa Leitura e até a próxima indicação!

 (1) Edição “primitiva” de “O Outono da Idade Média“, o “O Declínio da Idade Média“, sendo esse último, por conta das traduções (o atual vem direto do holandês) carregado de uma visão um tanto fatalista do período, ao passo que o atual não trata-se de um “romanceio” do período, mas, um tratamento deveras poético.

(2) Apenas indiquei o link, não é administrado por mim. Respeito e fomento a compra do livro. Reitero aqui a política de direitos autorais.

Nota: Caso você, leitor, esteja em São João del-Rei – MG, eu estou coordenando o GEPHIME – UFSJ (Grupo de estudos e pesquisas em História do Medievo da UFSJ) e estamos com as leituras aplicadas do “O Outono da Idade Média” na linha de pesquisa em História Cultural na Idade Média. As reuniões ocorrem quinzenalmente ás Sextas-Feiras no horário das 17h00 até as 18h30, no Curso de História da UFSJ. Vem conosco! Maiores informações, entre em contato!

Prof. Lucas Rodrigues\lucasr.academico@gmail.com\lucaslestran@gmail.com

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2 comentários sobre ““O Outono da Idade Média”: Uma apologia ao medievo tardio nos paradigmas da beleza.

  1. Lucas, sensacional! Tem como mandar o livro por e-mail? Adorei seu texto e me fez ter vontade de ler, tenho péssimas ideias sobre a idade média. Valeu…

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