CRÔNICA: Devaneios de um andar sem rumo

Bukowski, considero-o um cara safado, sacana, machista, perturbado, muito sexualizado e um tanto ingênuo. Mas eu gosto dele. Sua crueza e sua verdade escancarada e jogadas aos sete ventos me inspira a ser eu mesmo. É com o seu fatalismo derrotado e sinceramente cruel que inicio essa crônica. Paciência meus caros, leitura é um exercício (por vezes, chocante).

por Lucas Rodrigues.

§§§

“Andava com mania de suicídio e com crises de depressão aguda; não suportava ajuntamentos perto de mim e, acima de tudo, não tolerava entrar em fila comprida pra esperar seja lá o que fosse. E é nisso que toda a sociedade está se transformando: em longas filas à espera de alguma coisa. Tentei me matar com gás e não consegui. Mas tinha outro problema. Levantar da cama. Sempre tive ódio disso. Vivia afirmando: “as duas maiores invenções da humanidade foram a cama e a bomba atômica; não saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo”. Acharam que estava louco. Brincadeira de criança, é só disso que essa gente entende: brincadeira de criança – passam da placenta pro túmulo sem nem se abalar com este horror que é a vida.

Sim, eu odiava ter que me levantar da cama de manhã. Significava que a vida ia recomeçar e depois que se passa a noite inteira dormindo cria-se uma espécie de intimidade especial que fica muito mais difícil de abrir mão. Sempre fui solitário. Você vai me desculpar, creio que não regulo bem da cabeça, mas a verdade é que, se não fosse por uma que outra trepadinha legal, não me faria a mínima diferença se todas as pessoas do mundo morressem. É, eu sei que isso não é uma atitude simpática. Mas ficaria todo refestelado aqui dentro do meu caracol. Afinal de contas, foram essas pessoas que me tornaram infeliz.”

Charles Bukowski

_______________________________________________________________________________________

Processed with VSCO with b5 preset
Um além

Era domingo. Mais um péssimo domingo, eu particularmente nutro antipatia por domingos. Acordei pontualmente às nove da manhã com a luz cinza e pálida entrando pela minha janela, fustigando o meu rosto e anunciando o amargor daquele domingo insosso. Abri um olho, mesmo acordando não lanço mão de meus trejeitos, motivos de riso e simpatia para os meus conhecidos.

Virei-me. Respirei lenta e profundamente. Abri por completo os olhos, e chorei. Mais um dia, mas um dia, mais uma tarefa: levantar, escovar os dentes, se olhar no espelho e descobrir aquela falha no rosto que, embora antiga, parece-nos sempre uma novidade. O mesmo ritual matinal que me cansa e me entedia em pleno alvorecer matutino. Mas não levantei. Virei-me novamente e encarei o nada, vulgo, teto branco, distraindo-me com alguma aranha que teima em fazer a sua teia.

E pensei: mais um dia. Um amargo sobe à boca, os sentidos estão confusos e os barulhos do despertar dos vizinhos me incomodam. Meu corpo parece alquebrado, surrado, dolorido.

Para fechar a semana, numa sexta à noite, tive mais uma vez, a primeira em quase quatro meses, uma crise epiléptica. Em sala de aula, aula de História Moderna I, uma das melhores do semestre, perdendo apenas para História da Arte, que é a minha vida.

A desgraçada pegou-me de supetão. Passei o dia relativamente bem, embora o fantasma da existência paire sobre mim, sugando-me. Jantei na universidade, ao lado do meu icônico professor de medieval e colegas. Acendi um cigarro, o famigerado, como de praxe, e a fumaça bruxuleante acompanha o meu subir em direção ao prédio histórico do campus. No corredor, sinto um peso imenso nas costas, talvez motivado pela bolsa carregada de pesados livros, mas a mesma continuou mesmo livrando-a do peso. Ao beber água, senti a boca seca e insensível: não era normal.

Ao me sentar no lugar de praxe, um nervoso extremo se apoderou de mim. Um terror absoluto incendiou-me e arrebatou-me em um lamaçal profundo. Um formigamento sobe pelas minhas pernas e meu coração, ah, meu coração! O mesmo está acelerado e descompassado, tirando-me o ar e a pouca cor que recuperei com esforço. O formigamento sobe e aumenta, começo a alarmar meus colegas. Uns, assustados, querem chamar alguém, eu nego. Outros, experientes, me convidam a tomar ar perto das janelas altas. Adoraria ali mesmo por fim à sensação, numa queda só. Mas ponho-me na janela. E respiro, puxo o ar com total esforço. O peito dói, as lágrimas vem, o sentimento de impotência urge e no fim, você se entrega, desejando um efêmero e nada belo, fim.

O formigamento é quase completo, e chega à garganta. Uma de suas mui amigas te conforta, fala que vai dar tudo certo, que nada vai acontecer. Mas já está acontecendo! O ar não mais existe, a visão se turva, e um poderoso gancho invisível te puxa pela testa para trás. Você cai, eu caí.

Após isso, a dor.

A cabeça bate no piso de madeira, e como resultado um assovio alto e agudo, um piado, se instala em seus ouvidos. Mergulho num frio absoluto, e num escuro impenetrável, onde não há clemência, não há rogo, não há nada, apenas você e os vultos acima de você.

Sim, e excruciante permanece, a dor.

Vozes conhecidas, mas opacas, me guiam cegamente. Um poder descomunal age em mim, enrijecendo toda a minha musculatura. Meus dentes doem, meu maxilar dói, tamanha é a minha brutalidade e o desespero de quem tenta não permitir que eu me sufoque. E então, não mais existo, levemente por uns minutos, onde a consciência, como que em repouso, não mais age.

Mas eu voltei, infelizmente. Para muitos, felizmente. Não peço julgamentos, mas o desapego à vida tem fatores únicos e altamente influenciáveis no nosso encarar das coisas. Que seja falta de coragem, ao que parece, temos de ter a obrigação de sermos e parecermos fortes, um sinal de fraqueza e fragilidade nos anula perante os outros, a dó, a pena e o descaso se tornam corriqueiros para além das palavras.

Amarrado, contorcido e dopado. Eis-me aqui.

E neste domingo, relembro a cena, e, dolorido, permaneço deitado e imóvel, vegetando.

Dez horas, onze, meio dia, uma, duas, três, quatro, cinco e meia: jaz meu ser na mesma posição.

Nesse tempo, ouvi alguma música, assisti algum documentário no youtube, compartilhei alguma foto no Instagram, atualmente com fotos coloridas na tentativa de agregar cor aos meus olhos. Nada mais efêmero. Fiz, mas o fiz de modo mecânico, sem atenção.

Ouvi Bach, Mozart, Lucero Tena, Artic Monkeys, Angela Maria e Amália Rodrigues numa sequência só. Terminei com noturno de Chopin e enfim, levantei. Meu corpo doía, meu magro corpo. Um dia, pesei 80 kilos, hoje, agradecendo, mas nem tanto, emagreci por conta da doença: peso hoje, 62 kilos.

Sim, é epilepsia, é síndrome nervosa e de ansiedade, é depressão, a soma de tudo isso. E o peso de estar desempregado, sendo um ótimo profissional da educação sem modéstia alguma. Maldita crise que nos prepararam. Horrendo mundo em que tudo é necessário ter dinheiro.

Tomei um banho. Despi-me.

Encarei-me no espelho. Irrito-me sempre com o meu farto cabelo. Gosto depois dele, pois me dá um certo ar arrogante. Exploro o meu corpo. Ossos latentes, pele lânguida e musculatura frágil. Mesmo fragilizado e cheio de dores, impressionantemente, guardo ainda minha força viril, que se manifesta em poucos toques. Nem me desvia atenção.

A água cai sob meus ombros, e adormece a pele enregelada. Vontade de submergir naquela água, de me afogar, de ali ficar em conserva, de transformar-me na própria água e deixar-me escorrer pelo ralo. Dignidade não é mais presente nessa narrativa, pare aqui, caso a náusea tenha lhe chegado.

Vesti calça larga e camisa de dormir, uma suéter escura por cima, peguei a carteira, a chave de casa e sai. Esse domingo, ah, domingo.

Céu cinza, lúgubre e nevoento. Fez-me dar um meio sorriso, pois lembrou-me de São Paulo, minha capital. O cheiro de chuva vindo, o rápido escurecer e o vento frio açoitando meu rosto e esfriando ainda mais o meu cabelo molhado recebeu-me de braços abertos na rua.

Nunca andei tão mal arrumado nessa cidade.

As pessoas me olhavam, com certa curiosidade, nem ao menos as encarei, emboras as notasse. Andei de cabeça erguida, desafiador, mas, sem rumo. E andei. Tinha fome. O comércio estava completamente fechado. Uma ou duas pessoas nas ruas, tampouco meia dúzia de carros passando ao acaso. Estava perdido, não tinha motivo de estar na rua, simplesmente sai.

Andei, andei, e não sabia o que fazer. Para onde eu estava indo, meu Deus?

Atravessei a avenida e os carros com farol alto me cegando, o ímpeto suicida subindo-me na garganta, mas a atitude de amor próprio ainda vivo me protegendo de mim mesmo. Nunca cheguei a tal nível. Jamais.

Vejo o único supermercado aberto, num domingo. Entrei.

Usei o pouco dinheiro que tinha para um investimento: vender doces na universidade para descolar alguma grana. Comprei o necessário. Na guisa, comprei uma pêra, um pão doce e cinco pães de queijo.

Perdão pela simplicidade e potencial hipérbole: mas foi a melhor coisa que comi em dias.

A garoa e o vento frio me pegou. Mas andei calma e lentamente, comendo. O ar fresco morre quando entrei no meu quarto. Companheiro das lamentações.

§§§

Me assusta andar sem rumo, me assusta mergulhar num mar sem volta, me apavora esse cinza em que terminei me submetendo. As razões são diversas e os fatos são muitos. Ainda guardo em mim o amor, a esperança e a caridade. Mas ambas estão desunidas. mal nutridas e desarticuladas. O melhor de mim ainda vive, lá no fundo. O melhor de mim ainda aguarda dias melhores e quero piamente acreditar que virão, embora eu sei que possa demorar. Acusem-me de louco, mas permitam-me escolher minhas utopias, fazer minhas escolhas. Deixem-me amar sem reservas, embora eu tenha tido amores jogados fora, pela janela, sem eira nem beira, sem peso e sem balanço.

Ainda vivo, mas não há nada que, substancialmente, viva em mim. Talvez, dirão, é falta de Deus. Mas o certo é que me perdi e contribuíram para que eu me perdesse. No fim, só eu comigo mesmo, a traçar o caminho das pedras e cantar, após o O Vos Omnes, o Te Deum derradeiro.

16-05-2017, Minas Gerais.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s