Arte e Loucura: Uma relação indissociável

“no meio do mundo sereno da doença mental, o homem moderno não se comunica mais com o louco; há, de um lado, o homem de razão que delega para a loucura o médico, não autorizando, assim, relacionamento senão através da universalidade abstrata da doença; há, de outro lado, o homem de loucura que não se comunica com o outro senão pelo intermediário de uma razão igualmente abstrata, que é ordem, coação física e moral, pressão anônima do grupo, exigência de conformidade. Linguagem comum não há; ou melhor, não há mais; a constituição da loucura como doença mental, no final do século XVIII, estabelece a constatação de um diálogo rompido, dá a separação como já adquirida, e enterra no esquecimento todas essas palavras imperfeitas, sem sintaxe fixa, um tanto balbuciantes, nas quais se fazia a troca entre a loucura e a razão” (Foucault, 2006, p.154).

por Lucas Rodrigues.

O tema da loucura sempre me fascinou – ao passo que também me assusta, de certa forma – e ao ler um pouco de Michel Foucault, pude entender os pressupostos históricos e sociais da loucura, assim como a sua dimensão na sociedade e em nosso senso individual.

Por ocasião do VI EPHIS (Encontro de Pesquisa em História da UFMG) estive em Belo Horizonte – MG para defender e publicar minha pesquisa no eixo de “História, Gênero e Sexualidade: Processos de Constituições das subjetividades na História” e, logicamente, que fui dar um de turista pela capital mineira. Na oportunidade, fui visitar a mostra “Entre Nós – A figura humana no Acervo do Masp” (confira aqui) no CCBB-BH, que, embora eu ame a arquitetura do meu CCBB – SP, o  de BH, devo confessar, é sensacional.

Ao visitar algumas obras já conhecidas (pois sou um frequentador assíduo do MASP) fui-me embora, porém, chamou-me atenção um banner – bem no hall – sobre a temática que muto me fascina e fator principal de minha escrita: Arte e Loucura.

7_site_arte_e_loucura.png

A exposição “Empresta-me teus olhos?” – de fato – tomou de assalto meus olhos, minha atenção e minha admiração pela arte produzida ali. A seguir, reproduzo o que é falado sobre a exposição num folder da mesma:

EMPRESTA-ME TEUS OLHOS?

“A exposição de artes plásticas dos Centros de Convivência de Saúde Mental de Belo Horizonte integra as intervenções no Circuito Liberdade e se dedica a mostrar – para além do indizível do sofrimento e por meio de histórias que marcaram a reforma psiquiátrica, a obra e os sujeitos criadores dela.

A exposição é um convite a um novo olhar sobre a loucura, a um diálogo com a cidade. Dessa forma, a partir da produção estética e artística dos portadores de sofrimento mental, as pessoas são estimuladas a rever estigmas e preconceitos e a dar um novo espaço ao cidadão portador de sofrimento mental.

Durante o mês de Maio, serão realizadas intervenções com diversas linguagens artísticas, além de feira de publicações, oficinas, rodas de conversa e palestras. As ações acontecerão no Espaço do Conhecimento UFMG, MM Gerdau – Museu de Minas e do Metal, Memorial Minas Gerais Vale, Centro Cultural do Banco do Brasil, Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa e Museu Mineiro”.

Ao deparar-me com as obras de arte produzidas pelos pacientes, entre elas: pinturas em tela, esculturas e outros gêneros, tive a impressão imediata de adentrar um outro universo. As pinturas – que em sua maioria são auto-retratos – denota a loucura face a face, nua, crua e desvelada nas feições de um ser humano. Torções do rosto, olhares penetrantes e desvairados, bocas zombeteiras e sim, dolorosamente, um ar de tristeza. Friamente somos tragados na realidade dessas pessoas a partir de suas produções artísticas. Um detalhe que me chama atenção é a capacidade e até certa “perícia” na produção dessas obras, destreza que eu, no gozar de minhas faculdades mentais, não possuo, o que corrobora com a tese de que a loucura dá capacidades ímpares, embora tenha-se um preço por tal “dom”.

DSC04417.JPG

DSC04424.JPGDSC04420.JPGDSC04425.JPG

Embora eu não tenha registrado fotograficamente, é curioso notar na exposição a exacerbação do teor sexual explícito na produção escultural dos pacientes. Vi peças de mulheres com amplo destaque para a genitália, reproduções de ato sexual com posições um tanto “provocativas” e o desejo, latente, pulsante como o de um adolescente em plena puberdade, ser encarnado nas peças. Uma pena eu não ter tido o cuidado de fotografar, concentrei-me mais em fruir do que imortalizar em foto a produção ali disposta. Outra curiosidade é a noção de pertencimento e auto referência nos retratos e, por exemplo, a reprodução dos “RG´s”.

O surreal, o psicodélico também tem sua presença nas peças:

DSC04423.JPG

(Sem autoria) As feições animalescas, desvairadas e torcidas como uma manifestação clara da loucura: a arte que, cruamente, imita a vida.

Curioso notar que, até mesmo objetos do cotidiano viraram arte, aliás, a única “obra” que o meu senso estético torceu o nariz, embora eu tenha entendido o que significava: meu problema com o que é pós-moderno e sai do cânon (rs):

DSC04426.JPG

“Penicos” – objetos do cotidiano que são ressignificados.

Porém, entre tanta coisa legal que estive observando na exposição, deleitei-me com esse quadro em particular:

DSC04422.JPG

“Van Gogh” de Deolinda de Fátima. Pastel s/papel (30×40 cm) – Centro de Convivência Pampulha, 2011.

Entre risos, constatei que nem eu consigo ter a destreza para fazer tal retrato do Van Gogh, Deolinda minha cara, você é sensacional.

_____________________________________________________________________________

Gente, por fim, valeu muito a pena visitar a exposição e me fez perceber que a loucura, assim como outras doenças psicológicas, neurológicas e afins são sim, limitações, mas não obstáculos que podem ser driblados e, reitero aqui o papel da arte: que dá sentido à vida dessas pacientes, assim como suas produções que transmitem sentimentos profundos e biográficos.

ARTE E LOUCURA NO CIRCUITO LIBERDADE

EXPOSIÇÃO: Empresta-me teus olhos? no CCBB – BH (Térreo) do dia 12 de Abril a 29 de Maio de 2017.

Maiores informações: “Circuito Cultural Praça da Liberdade: Arte e Loucura no Circuito Liberdade ocupa nossos espaços em Maio”

Referências:

FOUCAULT, Michel. Loucura, literatura, sociedade. In: Motta, Manoel Barbosa (Org.). Problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise. Rio de Janeiro: Forense Universitária. p.232-258. 2006

Anúncios

Um comentário sobre “Arte e Loucura: Uma relação indissociável

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s