TOULOUSE-LAUTREC EM VERMELHO NO MASP: Impressões de uma mostra

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Disponível em: www.masp.art.br/

A exposição “Toulouse-Lautrec em Vermelho” no MASP ocorre do dia 30 de Junho até o dia 01 de Outubro deste ano.

por Lucas Rodrigues

Após um longo iato sem escrever aqui – por conta do conturbado semestre recheado de provas e trabalhos – enfim, estou de férias! Na oportunidade, retornei para São Paulo onde tive a oportunidade – gratificante! –  de visitar a exposição em cartaz no MASP: Toulouse-Lautrec em vermelho.

A exposição de um conjunto de obras do Lautrec coincidiu com a temática de meus estudos atuais em História da Arte: A tradição e a ruptura na História da Arte nos séculos XIX e XX.

Nome do pós-impressionismo francês, ícone dos salons franceses e da arte burlesca, Lautrec representou, por meio de sua pintura e de seus cartazes, a sociedade boêmia e o entorno do emblemático bairro de Montparnase, o Moulin de la Galette com as suas famosas coquettes. Todo o esplendor, sensualidade e atmosfera burlesca são temas recorrentes em sua obra, dando destaque para a representação das mulheres.

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Toulouse-Lautrec, O Divã. 1893, óleo sobre cartão – 54×69 cm. MASP, São Paulo. [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

Sobre a exposição e a rápida contextualização da obra e vida de Toulouse-Lautrec, cito aqui, na íntegra, o informe da mostra disponibilizado pelo MASP.

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“Henri de Toulouse-Lautrec [1864-1901] foi um dos artistas europeus mais importantes da virada do século 19 para o século 20, momento decisivo para a arte moderna e palco para as transformações políticas, econômicas e sociais que até hoje marcam a vida nas cidades. O MASP apresenta a mais ampla exposição dedicada ao artista no Brasil, abarcando toda a sua produção, desde os primeiros anos até o fim de sua vida, e reunindo 75 obras e 50 documentos. Toulouse-Lautrec em vermelho faz alusão ao salão de entrada de uma luxuosa maison close parisiense, que o artista frequentou nos anos 1890 e onde criou uma relação de amizade com as mulheres que ali trabalhavam. Extrapolando os interiores do salão vermelho, a exposição traz uma profusão de personagens – burgueses, boêmios, trabalhadores, dançarinos e artistas que conviviam em Paris e que fizeram parte do círculo afetivo e artístico de Toulouse-Lautrec.

Toulouse-Lautrec em vermelho se divide em cinco núcleos. O primeiro deles apresenta o mundo das maisons closes – “casas fechadas”, em francês – e revela o carinho e a simpatia do pintor em relação às mulheres retratadas. As três obras centrais são apresentadas num painel vermelho, evocando o famoso salão de entrada da maison La Fleur Blanche [A Flor Branca], em Paris. O segundo núcleo da exposição reúne outras representações de mulheres – algo que Toulouse-Lautrec dedicou especial atenção -, reunindo lavadeiras, modelos de ateliê, burguesas e nobres, evidenciando ou questionando seu papel social. O terceiro núcleo da exposição é dedicado a retratos masculinos. Ao contrário do que ocorre nas representações femininas, conhecemos os nomes de todos os homens nas pinturas de Toulouse-Lautrec incluídas na exposição, um sintoma eloquente da discriminação entre homens e mulheres e do papel que cada um exerce na sociedade, na história e na cultura visual. Finalmente, o quarto e o quinto núcleos trazem representações da vida noturna, com seus cabarés, bares, restaurantes e casas de espetáculo que proliferaram em Paris depois que a cidade começou a ser iluminada pela luz elétrica. Aqui vemos diversos personagens, como os trabalhadores que à noite frequentavam o Moulin de la Galettem a célebre dançarina Jane Avril (1868-1925) ou o debochado dono do cabaré Aristide Bruant (1851-1925), imortalizados em grandes cartazes que anunciavam seus espetáculos e que acabaram por marcar profundamente a paisagem urbana. Toulouse-Lautrec em vermelho apresenta tambérm uma seleção de 50 documentos, entre cartas, bilhetes, telegramas e fotografias do artista e de seu círculo, que constituem uma memória viva daquela época.”

Excerto retirado do informativo da mostra Toulouse-Lautrec em Vermelho de autoria da curadoria composta por Adriano Pedroso, diretor artístico, e Luciano Migliaccio, curador-adjunto de arte europeia, com assitência de Mariana Leme, assistente curatorial, MASP.

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IMPRESSÕES SOBRE A EXPOSIÇÃO

Sou suspeito para falar que, simplesmente, amo estar no MASP e satisfatoriamente me sinto pleno ao visitar não apenas o rico acervo fixo do museu, como também apreciar todas as mostras montadas e as perspectivas e propostas artísticas que as curadorias proporcionam ao visitante.

Considero Toulouse-Lautrec em vermelho emblemática. Foi prazeroso observar a fila imensa – sim, imensa – que se arrastava desde o vão até a sala onde se encontrava a mostra do Lautrec. A fila era composta por homens, mulheres e crianças, de todas as idades. Pude perceber desde leigos interessados aos mesmo especialistas de passagem, cujo conversa pude captar trechos. Alguns dentro da sala até me indagaram a motivação em fotografar não apenas a obra, mas também a placa ao lado de cada quadro – ao qual respondi que tratava-se das referências da obra – que apresentam as informações básicas (a ficha técnica) da obra observada.

Lautrec se enquadra no universo sensual, boêmio e burlesco que é típico da europa do século XIX, as dançarinas de “cancan” e os bares recheados de luxúria, que gerariam uma continuidade – no tema – que outros pintores também abordariam em suas produções, assim como seu contemporâneo, Mucha.

As mulheres de Toulouse-Lautrec representam a condição das mulheres européias no século XIX. O machismo travestido em esplendor boêmio na Paris novecentista é notável na exploração das garotas do Moulin, suas feições esboçam tristeza, distância da realidade, olhares vagos, apatia, impaciência… Como citado anteriormente, ao passo que Lautrec nomeia seus homens retratados, a maioria das mulheres são anônimas, ou nomeadas com nomes genéricos como a À la Bastille que, para efeito de comparação, remeteu-me, ao observá-la, a um dos inúmeros bebedores de absinto ao longo da produção artística do século XIX, o que suscita algumas indagações: Quem é? Que mulher é essa? Logicamente que, por meio das vestimentas, pode-se supor sua posição social, assim como sua ação no recinto, mas, ao jogar a modelo no anonimato, verifica-se a posição das mulheres numa sociedade que as objetifica, que as usa e que as mercantiliza como produto de um prazer, prazer esse desfrutado potencialmente por homens da alta classe parisiense. Tal paradigma é visível nas telas de Toulouse-Lautrec.

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Toulouse-Lautrec, À la bastille (Na Bastilha) [Jeanne Wenz]. 1888, óleo sobre tela. National Gallery of Art, Washington.[foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

Sobre a composição técnica dos quadros de Lautrec, é verificável sua técnica altamente pictórica. Sua pincelada é perceptível, as linhas são marcadas e fazem volume ao corpo dos retratados, assim como compõe seu figurino – à exemplo da famosa obra O Divã – .

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Toulouse-Lautrec, Moulin de la Galette. 1889, óleo sobre tela. Coburn Memorial of Chicago, EUA. [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

O emblemático Moulin é retratado de maneira por Lautrec de maneira curiosa. Pode-se observar o glamour da noite com o baile animado ao fundo, mas nota-se os personagens principais do quadro representados de maneira pensativa, solitária, até mesmo apática. As mulheres, provavelmente uma das garotas do Moulin, estão com olhares díspares, uma [a ruiva] concentra-se, estática, no baile, a segunda [ao lado da ruiva] está com um olhar fixo, parecendo não notar, ou mesmo ignorar o rapaz que parece convidativo à ela, chamando-lhe a atenção, ao passo que a terceira [e em destaque, de perfil] pelo contrário, parece que está a procura de algo ou alguém. A mesa com fichas de jogo jaz vazia em meio à cena barulhenta que a dança proporciona.

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Detalhe – Moulin de la Galette [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

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Detalhe – Moulin de la Galette [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

Olhando de perto a obra, é verificável a composição técnica: as linhas grossas que dão consistência ás formas, a pincelada (em linhas delineadoras) que dá forma ás figuras, assim como a fibra da tela é notável. Tal estilo caracteriza toda a obra de Lautrec, assim como suas gravuras.

DOCUMENTO – FONTE VIVA DA PERSONALIDADE DE TOULOUSE-LAUTREC

A exposição contou também com um acervo de inúmeras cartas, bilhetes, telegramas e escritos de Lautrec, que demonstra a vivacidade pitoresca do cotidiano, assim como de suas necessidades pessoais que, mesmo em meio as adversidades – sobretudo financeiras – Lautrec se referia aos outros (pedindo ajuda, principalmente à sua mãe) e à sua própria situação com um humor ácido digno de nota.

Há um telégrafo de Lautrec que, particularmente, fez-me rir ao ler a transcrição:

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Henri de Toulouse-Lautrec a sa mére (á sua mãe) – Paris, França – 1889 [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

Transcrição:

“Minha querida mamãe,

Mandei-lhe um telegrama. Envie-me 100 f [francos] para que eu não seja obrigado a pedir esmola ao grosseirão do porteiro – por telégrafo, se possível. Tudo vai bem, exceto o tempo, está chovendo. Beijos.

Your

Henri.

De fato, entre toda a documentação exposta, que fiz questão de ler todas, entre fotos, recibos e cartas, é notável a personalidade do artista: excênctrico, sarcástico, e sim, potencialmente em rítmo de falência.

Por fim, Toulouse-Lautrec em vermelho fez da minha terça-feira um dia agradável.

ALGUMAS OBRAS

A seguir, algumas obras que fotografei pois chamaram-me muita atenção. Entre todos os quadros, analisando e “fruindo” pude observar na saída do museu que demorei, exatas uma hora e quarenta e cinco minutos dentro da exposição, tempo esse que infelizmente não achei suficiente.

[A luz da sala que abriga a exposição infelizmente ficou registrada em alguns quadros fotografados]

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Toulouse-Lautrec, Estudo para “No salão da rue des moulins”. 1894, óleo sobre tela. Hammer Museum, Los Angeles. [fotto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

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Toulouse-Lautrec, As duas amigas. 1894, óleo sobre tela. Bequeheathed by Montague Shearman through the Contemporary Art  Society, 1940. [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

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Toulouse-Lautrec, Retratos de atores e atrizes: treze litogravuras. 1898, National Gallery of Australia. [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

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Toulouse-Lautrec, Retratos de atores e atrizes: treze litogravuras. 1898, National Gallery of Australia. [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

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[Detalhe] Toulouse-Lautrec, Retratos de atores e atrizes: treze litogravuras. 1898, National Gallery of Australia. [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

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Toulouse-Lautrec, May Belfort. 1895, litogravura. Bibliothèque Nationale de France. [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

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Toulouse-Lautrec, À Saint-Lazare. 1886, óleo sobre cartão. Tríton Collection Foundation. [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

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Toulouse-Lautrec, Femme au boa noir. 1892, óleo sobre cartão. Paris, musée d´Orsay (Doação da condessa Alphonse de Toulouse-Lautrec, mãe do artista). [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

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Toulouse-Lautrec, Portrait de femme de la maison de la rue d´Amboise. 1892, óleo sobre tela. Musée d´Art Classique de Mougins. [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

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Toulouse-Lautrec, Tête de fille.1892, óleo sobre tela. Collection Queensland Art Gallery. [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

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Toulouse-Lautrec, La Grosse Maria. 1886, óleo sobre tela. Van der Heydt-Museum Wuppertal, Alemanha. [foto: Lucas Rodrigues, 2017-SP]

Toulouse-Lautrec em vermelho fica na programação do MASP até o dia 01 de Outubro, indico e reafirmo: uma experiência maravilhosa!

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Lucas Rodrigues é paulistano, pedagogo e licenciando em História pela Universidade Federal de São João del-Rei em Minas Gerais. Atualmente dedica-se à pesquisa em História da Arte, com ênfase em Arte Sacra nas Minas Gerais oito e novecentista.

 

 

 

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