Mariposas

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Olá caros leitores, faz tanto tempo que não escrevo. Peço sinceras desculpas. A vida está realmente muito corrida, preocupações, insônias, baixas depressivas, abuso de remédios, de cigarro, de cafés fortes e grande stress pelos estudos da prova teórica do mestrado próximo estão de fato, me debilitando. O mundo acadêmico não é nada fácil, estou muito cansado. A vida se abre diante de você, com suas dificuldades, as mesmas que me fazem pensar recorrentemente em desistir. Mas não posso, não devo e não quero. Sempre fui resiliente e teimoso, típico de virginiano perfeccionista. Prometo – mais para mim mesmo – que tentarei uma assiduidade maior no Miscelânea Pontual, que expressa o meu mundinho particular ainda em construção.

A seguir, um Conto da Semana, embora haja um hiato entre esse e o anterior, não fazendo jus à periodicidade do nome “da Semana”.

Conto da Semana – Mariposas

por Lucas Rodrigues

É noite.

Escuto Sylvia Telles – “Suas mãos” – música eternizada na voz da minha querida Maysa. “…se eu soubesse onde está, seu amor, você…” a melancolia do piano, do baixo e do oboé deixam meu coração mais descompassado. Sim, estou triste…

Meus 23 estão doloridos. Será que essa idade deveria ser assim tão dolorosa? As vezes eu não gostaria de ter a sensibilidade que tenho, para mim, para os outros, para tudo ao meu redor. Recebi mais uma pancada hoje no começo da tarde, mais uma amiga se foi para o desconhecido. Não era uma amiga próxima, mas era uma pessoa que convivi por 7 anos. Era do bairro, trabalhadora, mãe de duas filhas e esposa dedicada. Ri muito com ela, partilhei bastante coisa, trabalhei ao seu lado. Era uma pessoa normal, comum, sem nenhum atrativo cult que sempre perseguimos almejar nos outros e em nós mesmos. E por ser assim, simples e cruamente comum, era dona da maior graça possível. Ela se foi, e eu, meio triste e ao mesmo tempo meio indiferente, segui minha tarde pensando e rememorando… os prenúncios!

Sou uma pessoa sensitiva, sempre soube disso. Fui criado numa instância de crenças mistas em casa, sempre com a liberdade de optar por fés diversas. Mas, segui o conservadorismo ultra católico de minha falecida e amada avó. Porém é curioso, minha avó era cercada de mistérios e certa sabedoria oculta no seu olhar negro, eu temia e ao mesmo amava. Acho que fui o único neto que comungou desse mistério. Recebi algo dela, uma força talvez, um espírito, algo que chamo de ancestralidade. A mesma, eu denomino uma certa sensibilidade de estar atento e ler aos prenúncios, os sinais, tendo a natureza como oráculo.

Fui abalado por uma morte esse ano, de alguém realmente próximo, querido e amado. Não superei ainda, apenas esqueci. É incrível como tive certos presságios…

Noites passadas, e eu, mais uma vez nas minhas lutas cotidianas com os lençóis, finalmente adormeci. Mas acordei sobressaltado. Trovões ressoavam e espantei-me: “Ainda chove?”. Abri os olhos no escuro e encarei o teto, um pouco iluminado por uma luz âmbar dos postes da rua que entravam pela fresta de minha janela. Fiquei em silêncio e paralisado de medo. Acordei com alguém sussurrando aos meus ouvidos, claramente alguém falava. Eu senti o bafo quente nos meus ouvidos. Meus pêlos se eriçam ao lembrar e o meu corpo treme, nu sob o fino lençol.

Não aguento, levanto e saio do quarto encarando a chuva do meu terraço. Retornei, e curiosamente dormi bem.

Os dias que se seguiram continuaram com ameaça de chuva e ventos fortes. Ventos fortes foram a causa da chegada da mariposa, a bruxa.

Esse inseto belo e ao mesmo tempo terrível me assombra desde a infância. Minha avó o temia, e aprendi com ela a teme-lá também.

Era noite, a mariposa avança sobre a minha cabeça, deixando-me pesaroso e com o semblante em dúvida. Desci as escadas rápido e fui cozinhar. Mas a maldita me seguiu e pôs-se a rodopiar sobre mim, quando depois de minutos a mesma, cansada, pousara no chão, ficando inerte.

Era bonita, alaranjada, e nas duas asas, para minha desgraça, duas caveiras perfeitamente desenhadas. Na hora, lembrei-me de um dos filmes preferidos de minha mãe, o emblemático O Silêncio dos Inocentes.

A bruxa, nome popular de tal espécie de mariposa é famosa pelo seu simbolismo de trazer prenúncios de desgraça, penúria, morte. Aceitei o seu veredicto. Não há nada que possamos fazer perante a grandeza dos desígnios da natureza. Respeitosamente segui em minhas atividades, deixando-a lá a me espreitar. Não me atrevo a retirá-la de lá. E lá ficou.

Horas depois, não a vi mais no lugar. Por curiosidade, abri a porta que dá para a área externa e, chocado, a vi. Morta, torta com um violento pisão. Fiquei extremamente raivoso. Por que matar um animal tão belo? Tão inofensivo? Ódio definiu o meu sentir naquele exato momento. Um simbolismo tão belo e ao mesmo tempo tão terrível encerrava aquela vida, e sumariamente seu bater de asas fora destruído.

Sim, algo deve morrer para outra coisa renascer.

Mortes próximas vieram, é fato. Menos a minha. De fato, parece não ser a minha hora, embora pareça de vez em quando. Mas não falo aqui de mortes físicas, mas de mortes sentimentais e cíclicas. Devo morrer todos os dias e sinto que morro. Morre em mim certezas, sorrisos, males, morre um pedaço de mim para que nasça outro, talvez mais forte ou mais debilitado ainda. Meu corpo sente o peso da mente. Sou a larva, que se arrasta vagarosamente e troca de peles, troca essa sempre dolorosa. É um cíclico esfolar-se. Quanta auto-tortura e auto-sabotagem é necessária para voar finalmente?

Morre em mim amizades, e algumas faço questão de as sepultar pessoalmente. Sufoco-as, pois fizeram-me mal. Não posso mais conviver com o egoísmo, com a mesquinhez, com a falsidade. O meu “eu” de hoje não tem mais condições de lidar com gente assim. Eu só preciso de luz e de gente iluminada, não do contrário, que me suga, de nadas que se acham tudo. A queda desse tipo de elemento execrável cai por si só. Não necessito fazer nada.

Mariposas morrem, para outras voarem trazendo seus presságios. Sua vinda, embora sempre traumática, é bem-vinda. Não podemos ter medo daquilo que é natural. Precisamos morrer todos os dias para viver mais plenamente.

Hoje, e agora, finalizo esse conto. Mais leve, como se tivesse morrido. Tenho uma enorme vontade de fumar, mas é fim de mês e não há grana. Menos mal. No momento, a playlist saiu da fossa e foi para Carlos Puebla cantando “Lo eterno“… ha! Esses cubanos comunistas…. como fazem música gostosa!

 

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