José A. Figueroa – Hermosura y Revolución!

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“De la serie Marti. Avenida Carlos III. La Habana, 1988 (José A. Figueroa)”

Exposição de cliks do fotógrafo cubano está em cartaz de 10 de Janeiro a 04 de Março de 2018 no Centro Cultural da Caixa Econômica, Sé – São Paulo.

por Lucas Rodrigues.

No meu programa de férias de verão de 2018, antes de retornar às atividades acadêmicas, decidi dar uma chance para o Centro Cultural da Caixa Econômica na Praça da Sé em São Paulo. Nunca havia entrado no museu\banco que, nos mesmos moldes do fantástico CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil) trata-se de uma agência antiga, transformada em centro cultural. Assíduo frequentador do CCBB que sou, nunca antes tinha voltado o olhar para a Caixa Cultural. Um edifício imponente, repleto de pavimentos, por meio de suas paredes, vitrais e decoração, contam a história da agência bancária na São Paulo quatrocentona. Detentora de um museu fixo – a disposição mobiliária de época – a Caixa apresenta ao visitante uma profunda e instigante imersão no século XIX e XX, onde o mobiliário, os retratos (desde Dom Pedro II ao icônico Getúlio Vargas) – “bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar”(1) – e os instrumentos médicos, bancários e moedas falam por si, demonstrando a elegância da belle epoque paulista.

Nos pavimentos inferiores, desde o hall de entrada, estão montadas inúmeras exposições de diferentes temas, uma delas, destaco, é a mostra de fotografias de José A. Figueroa.

MINHAS IMPRESSÕES

Antes de adentrarmos nas imagens e no texto da curadoria, devo antes registrar minhas impressões acerca do exposto na mostra.

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Foto: Lucas Rodrigues, 2018

Digo sem sombra de dúvida, que, dentre os movimentos revolucionários na América Latina, o mais emblemático é o de Cuba. Pelas mãos de Che e dos Castro, numa demonstração do efetivo “poder popular”, a ilha se vê diante da utopia comunista. Utopia que vai se desenhando como realidade sólida e construtiva, onde o socialismo se mostra como uma forma de resistência e de opção perante o imperialismo norte-americano que fez da América Latina o seu quintal. A resposta de Washington seria rápida: o famigerado embargo econômico e a propaganda capitalista dos “refugiados”, a ideologia dominante e as dificuldades da ilha afim de degenerar e sufocar a mesma. Como não se faz revolução com flores, o povo cubano resistiu e resiste ainda bravamente em nome de sua opção pelo socialismo e tal espírito revolucionário foi captado por José A. Figueroa.

A empatia e a sensibilidade de Figueroa é presente nos seus registros. Fotografias que abarcam o processo revolucionário, a guerra civil e suas marcas na urbanidade, a propaganda, a resistência e a indignação dos cubanos perante o embargo norte-americano, vide o “Nixon Hijo de Puta!”. Tais registros são preciosos para a história cubana em seu momento singular, a transição de uma nova concepção de homem e sociedade.

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Foto: Lucas Rodrigues, 2018

Para além do tema da revolução, Figueroa se revela como um fotógrafo da intimidade, capturando com um olhar sofisticado e até sensual, devo admitir que apaixonei-me pelas mulheres de Figueroa. Todas posando paras as fotos, em ângulos bem pensados e com uma simplicidade e “hermosura” tipicamente latina.

A seguir, alguns trechos do texto da curadoria da exposição, de autoria de Cristina Figueroa Vives.

TEXTO DE CURADORIA – Excertos

José A. Figueroa (Havana, 1946) é considerado um dos fotógrafos que permitiu a transição da fotografia documental para a fotografia simbólica e conceitual em Cuba e na América Latina.

O que o diferencia dos outros fotógrafos cubanos, antecessores e/ou contemporâneos, é o fato de que Figueroa com sua câmera explorou, sem interrupção, todas as etapas históricas do seu país desde os primeiros anos da vitória da Revolução – quando era um jovem fotógrafo, vindo da classe média de Havana, que enfrentava as dramáticas mudanças sociais -, até os tempos atuais; isto é, sua obra engloba cinco décadas que vão desde a “utopia” socialista dos anos sessenta e setenta, com toda a complexidade que esse processo significou, até a realidade atual e a perspectiva incerta sobre o futuro; tudo a partir de sua experiência própria como cubano, havanês e como artista.

Se capacita como fotógrafo durante os primeiros anos da década de sessenta (1964-1968) como assistente e técnico de revelação nos Studios Korda, famoso estúdio comercial inaugurado no final da década de cinquenta em Havana e especializado em fotografia de moda e publicitária. Lá se torna aprendiz, assistente e amigo pessoal de Alberto Korda, que é reconhecido como um dos maiores nomes da fotografia épica da Revolução Cubana. As fotografias de Figueroa esta época – em sua maioria inéditas – são, pelo contrário, a reivindicação de uma geração (a sua geração) e possuem uma estética que se empenhava em sobreviver a massificação social e a censura impostas pelo projeto socialista. Assim nos chega uma visão dos anos sessenta pouco conhecida na história da fotografia cubana e ausente, até hoje, da iconografia oficial da Revolução.

FOTOS

Entre todos os registros mostrados na Caixa Cultural, busquei por outros que não se encontram na mostra. São fotografias que, pelo seu tema e pela sua estética, me agradaram de maneira peculiar. Uma certa nostalgia e um sentimento de pertencimento á geração de Figueroa adentrou-me a cada olhar dirigido para suas belas fotografias.

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“De la serie La Imagen, Zippo, edición limitada no. 100. La Habana, 2000”

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Autorretrato con Chung y Angelifo, en perspectiva, Calle 17, La Habana

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Diana y Sabin en Riomar, La Habana

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Chuni en casa de ni tia Beba, La Habana

REFERÊNCIAS
Catálogo: José A. Figueroa – Um autorretrato Cubano. Centro Cultural da Caixa Econômica Federal. São Paulo, 2018.
Disponível em:
(2) https://www.icp.org/browse/archive/objects/diana-y-sabin-en-riomar-la-habana
(3) http://fiatdev.rollins.edu/cornell-fine-arts-museum/collection/alfond/artists-fj.html
(4) https://www.icp.org/browse/archive/objects/chuni-en-casa-de-ni-tia-beba-la-habana

NOTAS

(1) Jingle de campanha de Getúlio Vargas. A marchinha de tons carnavalescos toma como tema o decreto lei que definia ser obrigatória a presença do retrato de Getúlio em todas as repartições públicas (“Bota o retrato do velho”)

§§§

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Lucas Rodrigues é paulistano, pedagogo e licenciando em História pela Universidade Federal de São João Del-Rei em Minas Gerais. Atualmente dedica-se à pesquisa na área de História da Arte, com ênfase em Arte Sacra mineira dos séculos XVIII e XIX.

 

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