A paixão pelos detalhes: Aventuras de um iconógrafo na “Madalena Penitente’ de Tintoretto.

O campo mais fértil da História da Arte, de caráter investigativo, arqueológico, histórico, filosófico, psicológico e cultural, certamente é o da iconografia. O iconógrafo, na História da Arte, têm como função primordial interpretar, traduzir, comparar e compreender o papel dos símbolos, dos atributos e dos motivos que tornam a obra de arte um objeto de sistemático estudo. O cotidiano do iconógrafo, ao meu ver, é sempre envolto em aventura e descoberta.

por Lucas Rodrigues.

No momento em que minhas pesquisas se aprofundam cada vez mais no campo da iconografia, percebo uma mudança em mim mesmo que ouso ser Historiador da Arte. Essa mudança se concentra na capacidade visual de “bater o olho” em algo e ser, quase que automaticamente, bombardeado, invocando à mente inúmeras referências literárias e de comparação. O iconógrafo é sempre uma bomba relógio, prestes a explodir perante o mínimo dos estímulos. Em especial a Arte Sacra, isso é, a arte produzida não com o objetivo de, apenas, servir de alfaia e objeto de culto litúrgico, mas, que carrega em si atributos do sagrado, a saber, a arte cristã ou a arte que aborda temas cristãos. Essa arte em especial me bombardeia 24h tamanha é a sua riqueza.

O iconógrafo, ao se deparar com uma “Madalena Penitente”, por exemplo, será bombardeado por uma série de símbolos, todos dispostos em uma ordem que forma uma síntese arrojada e coerente na concepção formal e estética da obra. Há padrões e citações iconográficas recorrentes em determinada representação, o que cria uma “tradição” de atributos que fazem do sujeito retratado identificável a partir dos tais atributos visuais.

Falar de iconografia é lembrar-se sempre do Prof. Erving Panofsky, autor do importante e emblemático Significado nas Artes Visuais, livro crucial e indispensável para quem deseja trabalhar com iconografia.  O capítulo em específico, “Iconografia e Iconologia: Uma Introdução ao estudo da Arte da Renascença” nos apresenta o “método iconológico” e como o mesmo deve ser utilizado ao se analisar uma obra de arte. As “três etapas” teorizadas por Panofsky nos dão o caminho a entender a iconografia e como ela se manifesta enquanto elemento de aprofundamento na concepção temática da obra. Porém, o método iconológico trata-se apenas de um caminho, um percurso a ser seguido, a leitura da iconografia vai além do método.

Neste caso, entra ai o papel do historiador da Arte como um profissional dotado de inúmeros saberes acadêmicos, de uma notável erudição. Tal erudição é vital para o Historiador da Arte, sobretudo para o iconógrafo. Os saberes, neste caso, incluem a própria História, a saber: os fatos ligados sobretudo à arte e á religião, no caso da Arte Sacra; a psicologia, sobretudo no campo do imaginário e das representações imagéticas, função tal que a própria História tomou para si com a Écolle de Analles com o advento da História dita “das mentalidades” e posteriormente a História Cultural, com o conceito de representação do francês Roger Chartier. O campo da filosofia, no campo da estética e das ideias que provocam o surgir de uma representação visual, à exemplo do iluminismo, da república, da fé, por exemplo(1) assim como a Mitologia Greco-Romana. O campo da antropologia, no caso da familiarização dos símbolos e dos povos que o utilizam. E, talvez, o campo mais importante e caro ao trabalho do iconógrafo: a literatura.

A literatura foi e tem sido o principal suporte facilitador do iconógrafo, pois o elemento da palavra se transforma em elemento visual. No caso da Arte Sacra, a literatura religiosa é um apoio indispensável à leitura iconográfica. Os textos mais ilustres são, em primeiro lugar, as Escrituras (a Bíblia), e em seguida os textos mais famosos, os Livros Apócrifos (que não estão no cânon oficial da Bíblia), a Legenda Aurea ou Lenda de Ouro, o manuscrito mais importante da Idade Média contendo a vida dos principais santos venerados até então. As “vidas” dos santos e seus fatos, sobretudo místicos e de formação intelectual, e a literatura secular originada de tais “vidas”, as novelas, populares desde a Idade Média e Renascença adentro.

A MADALENA PENITENTE, CASO EMBLEMÁTICO 

Foi meu objeto de estudo recente numa disciplina de História da Arte, metodológica, a obra Madalena Penitente, de Tintoretto filho. A seguir, os “slides” do estudo que gerou um seminário sobre a iconografia da Madalena Penitente dentro de uma abordagem de estudo tradicional da História da Arte: Análise Formal (Vida do Artista, Estilo da Pintura, Método de concepção, Técnica, Dimensões, Tradição ou “Escola”, Análise Iconológica, Fontes históricas de comprovação da iconografia, Análise Comparativa).

 

OBSERVAÇÕES:

Do slide 13 para o 14 – Não se deve confundir a iconografia da “Madalena Penitente” com a da “Madalena Arrependida” pois são duas situações biográficas diferentes, portanto, as citações são diferentes e os atributos iconológicos são outros.

A apresentação e o presente trabalho foi fruto das reflexões teórico-metodológicas da História da Arte na disciplina “Como escrever a História da Arte: Questões de Metodologia” sob orientação da Profa. Dra. Letícia Martins de Andrade, da Universidade Federal de São João Del-Rei.

NOTAS

(1) O iluminismo com a deusa da razão, a República na figura de Marienne e, talvez o simbolo mais emblemático da História, a fé dos Jesuítas e o carisma de seu fundador, Ignácio de Loyola, no sinete do IHS.

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